A realização da Copa América no Brasil é mais uma medida negacionista do governo Bolsonaro. A intenção, certamente, é desviar o foco da pandemia e da CPI da Covid-19, que pode alicerçar o processo de impeachment do presidente. Outro objetivo é dar ao país ares de normalidade aos olhos do mundo. Tudo isso no momento em que beiramos a cifra de 470 mil mortes causadas pelo Coronavírus.
A proposta da Confederação Sul-americana de Futebol (Conmebol) foi anunciada na segunda-feira (31/5) e aceita a toque de caixa pelo governo brasileiro. O médico Miguel Nicolelis, que durante dez meses coordenou o comitê científico de combate ao coronavírus no Nordeste, alerta que o evento poderá ser a “gota d’água” para a terceira onda de Covid-19 no país. Vários cientistas concordam com ele.
O campeonato seria realizado na Colômbia e na Argentina. No entanto, o primeiro país enfrenta uma grave turbulência social, enquanto o outro vive seu “pior momento da pandemia” – segundo palavras do próprio presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. A transferência para o Brasil foi intermediada pelo presidente da CBF, Rogério Caboclo, cuja administração vive momentos de crise sob a suspeita de corrupção.
Delegações estrangeiras
A ideia de realizar a Copa América no Brasil teve o endosso imediato da Secretaria Nacional de Esporte e dos ministérios da Casa Civil, Relações Exteriores e (pasmem!) Saúde. Isso prova que a irresponsabilidade no tocante à segurança sanitária não se restringe ao presidente da república. Sob o comando do técnico Tite, para evitar maiores polêmicas, os jogadores da seleção brasileira estão proibidos de dar entrevistas.
“É um chute na boca dos brasileiros que perderam familiares, de todos nós que estamos há 14 meses em quarentena em casa”, reagiu o dr. Nicolelis, que é professor de neurociência na Universidade de Duke, nos EUA. “O Brasil aceitou o pepino instantaneamente”, mas, para responder à Pfizer diante das ofertas de vacinas “precisa de vários e-mails”, acrescentou em entrevista à BBC News, quando propôs que alguma medida legal seja adotada para impedir a realização do evento.
A Copa América vai reunir seleções de dez países sul-americanos, o que de fato pode aumentar a circulação de novas cepas do coronavírus. Além das delegações esportivas, podendo cada uma delas ter até 65 pessoas, estarão presentes staffs oficiais e equipes jornalísticas de várias partes do mundo.
A infectologista Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, considera a realização do torneio “um absurdo total”. Em entrevista à UOL, ela defendeu que as demais competições que estão em andamento no país deveriam ser paralisadas nos estados que vivem situações mais críticas devido à pandemia.
Boicote às transmissões
Com exibição exclusiva pelo SBT, rede televisiva alinhada com o governo federal, a Copa América terá início no próximo dia 13. A primeira partida da seleção brasileira será contra a Venezuela, no dia seguinte. Os jogos serão realizados nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro, Goiânia e Cuiabá.
O momento não poderia ser pior, já que a terceira onda da Covid-19 paira sobre nossas cabeças feito um machado nas mãos do carrasco – que poderia se chamar Jair. O nível de demência, cinismo e falta de empatia do presidente parece não ter limites. Suas atitudes e declarações cotidianas mostram que nada é tão ruim que não possa piorar.
Contudo, se não for possível embargar o campeonato por meios jurídicos, cabe a todo cidadão consciente boicotar as transmissões. Mesmo gostando de futebol, pessoas empáticas e de boa índole certamente abraçarão a ideia em protesto contra os desmandos do governo. Nesse sentido, a “Cepa América”, como já vem sendo chamada a competição, poderá cravar alguns pregos a mais no caixão político de Jair Bolsonaro.