A quem interessa saber se a flor é do Lácio, da Alsácia ou da Capadócia?
Assisti a um programa do Sílvio Santos, reprisado de não sei quantos anos atrás, em que uma pessoa devia responder a perguntas para ganhar um bom dinheiro se acertasse as respostas. Um dos concorrentes era o cantor Zezé de Camargo, ainda bem jovem. Era a seguinte a pergunta que ele devia responder, valendo 20 mil reais: Qual destas capitais não é insular: Rio de Janeiro, São Luiz, Florianópolis ou Vitória?
Foi pândego e triste. O sertanejo universitário (???) pensou, pensou, pensou e confessou que não poderia responder, pois não sabia o que era insular. Recorreu aos outros nove participantes, que levantaram placas indicando que a resposta era São Luiz. Todos eles, pasmem.
Em tempos anteriores à década de 70, qualquer estudante de curso ginasial, correspondente hoje ao segundo grau, saberia que a palavra latina insula significa ilha em português. Logo, a única resposta para a pergunta era Rio de Janeiro. Mas como exigir do sertanejo universitário saber uma coisa tão difícil, que a capital fluminense é a única capital, dentre as mencionadas, que não é uma ilha, ou seja, não é insular? O que ele sabe é cantar. Para o resto, está é cantando e andando.
Foi então que eu me lembrei de como e porque a chamada Revolução de 1964 resolveu eliminar o latim do currículo escolar no Brasil. A explicação é simples. Ditaduras e ditadores não governam um povo culto. Por isso, a primeira coisa que fazem é censurar, inibir ou mesmo eliminar tudo o que seja cultura. Estudar latim é formar gente culta, e os ditadores precisam é de gente inculta. Ignorante, fácil de dominar, para que possam governar sem oposição ou com oposição reduzida a quase nada. Foi por isso que transformaram a nossa Flor do Lácio em flor do autoritarismo.
É esse o tempo que estamos vivendo hoje, desafortunadamente, no Brasil. Tempo da ignorância, da incultura, da turba ignara que segue cega as ordens e os exemplos advindos do empoderado chefe. A quem interessa saber um tiquitinho de latim, nossa língua mãe? A quem interessa saber se a flor é do Lácio, da Alsácia ou da Capadócia? De que vale saber se a terra é plana ou redonda ou se Belo Horizonte é uma península? E mais: pra que usar máscara, esse troço incômodo que esconde o sorriso e a careta? São perguntas que a turba faz a si mesma ao se aglomerar em obediência ao chefe que chama de mito, sem saber sequer o que seja mito. E vai morrendo em cascata, na ilusão de que esta é só uma pandemiazinha. Graças a Deus, estudei rudimentos de latim no ginásio, por isso não sou de todo cru em português e pertenço à plebe um pouco menos ignara.
Em tempo: não tomarei hidroxicloroquina, de jeito maneira, se receitarem esse remédio para a cura da minha diabetes.
por Afonso Barroso
VOZ DO PARÁ: Essencial todo dia!
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