Nos últimos anos, integrantes das forças armadas brasileira recebem generosos soldos, mas se ocupam apenas de ameaçar a democracia
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, anunciou a troca do comando do Exército no sábado à noite. O general Tomás Miguel Ribeiro Paiva está assumindo o comando no lugar do general golpista Júlio César de Arruda, nomeado em dezembro pelo governo de transição.
O ministro da Defesa afirmou que a troca foi necessária para superar as questões de confiança entre as Forças Armadas e o governo e para se aproximar mais do presidente Lula. O novo comandante do Exército já liderou tropas em missões no Haiti e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ele também defendeu que o resultado das eleições deve ser respeitado.
“As relações, principalmente no Comando do Exército, sofreram uma fratura num nível de confiança e achávamos que precisávamos estancar isso logo de início para superar esse episódio. Queria apresentar o substituto, general Tomás, que a partir de hoje é o novo comandante”, afirmou José Múcio Monteiro. “Hoje, nós estamos investindo mais uma vez na aproximação das nossas Forças Armadas com o governo do presidente Lula.”
Arruda protegeu acampamento e chegou a sugerir confronto entre Exército e PM do Distrito Federal. “O senhor sabe que a minha tropa é um pouco maior que a sua, né?”, teria dito.
Nos últimos anos, integrantes das forças armadas brasileira recebem generosos soldos, mas se ocupam apenas de ameaçar a democracia
O general Júlio César de Arruda, demitido do comando do Exército neste sábado, teve duras discussões na noite do dia 8 de janeiro com o ministro da Justiça, Flávio Dino, relata Guilherme Amado, no Metrópoles. Começou ali o enredo que levou à sua exoneração.
“Naquela noite, o comandante militar do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra de Menezes, teve uma dura discussão com o interventor Ricardo Cappelli. O clima esquentou quando o secretário, liderando a tropa da Polícia Militar, chegou ao Setor Militar Urbano e anunciou que prenderia os golpistas acampados em frente ao quartel-general. O general afirmou que a tropa da PM não passaria dali”, escreveu o jornalista.
O comandante do Exército e Cappelli se reuniram no Comando Militar do Planalto. Houve a primeira discussão tensa de Arruda naquela noite, quando chegou a colocar o dedo na cara de Cappelli e do então comandante da PM, coronel Fábio Augusto Vieira.
O policial, preso por determinação de Alexandre de Moraes, afirmou em seu depoimento que o Exército havia proibido prisões. Em dado momento, Arruda dirigiu-se para o policial, também com o dedo em riste. “O senhor sabe que a minha tropa é um pouco maior que a sua, né?”, disse, em tom de ameaça, referindo-se às tropas da PMDF e do Exército.
Os ministros Flávio Dino, José Múcio (Defesa) e Rui Costa (Casa Civil) se reuniram naquela mesma noite com o general Arruda. Foi quando o comandante do Exército peitou o ministro da Justiça.
O general exigiu que os ônibus dos golpistas, que haviam sido apreendidos pela Polícia Militar por ordem de Dino, fossem devolvidos. O ministro da Justiça afirmou que não devolveria porque era prova de crime e assim seriam tratados.
O general golpista, subindo o tom de voz, insistia que ninguém seria preso no acampamento, conforme relatou a repórter Marina Dias. Dino também elevou a voz e manteve a ordem. Neste momento, os dois já estavam em pé e o clima prenunciava uma briga ainda mais dura.
Rui Costa interveio e conduziu a conversa para uma conciliação. Ficou acordado que as prisões não seriam naquela hora, mas sim no dia seguinte de manhã.
A demissão de Arruda foi sacramentada quando chegou a Lula a informação de que Arruda não demitiria o tenente-coronel Mauro Cid, lacaio do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Cid era o principal ajudante de ordens de Jair Bolsonaro e cuidava até das contas pessoais da família – uma espécie de Fabrício Queiroz do Palácio do Planalto –, e hoje está lotado no 1º Batalhão de Ações e Comandos, em Goiânia. Trata-se de uma das unidades do Comando de Operações Especiais do Exército, e, por estar nos arredores de Brasília, passível de ter que ser acionada para garantir a segurança da capital.